O volante pesava mais nos seus braços enfraquecidos.
Pelas pedras de todos os dias,
Temia cair a cada passo,
As tonturas visitavam-no pela [demasiada] vez essa semana,
a cabeça latejava...
A quem fiz mal para estar assim?, perguntava,
A ti próprio, respondia a consciência
(não fosse ela parte do próprio sujeito),
E a culpa inundava-o.
Dizia que se amava e aceitava completamente,
mas sacrificava-se constantemente.
Sempre pesara mais a vontade de se dedicar aos seus projectos
do que a grande vontade de dormir.
Mas agora a vontade de dormir
era mais forte que a vontade de amar.
Ele desejava apenas uma gota
de equilíbrio
na sua vida...
Só uma...
domingo, 18 de setembro de 2016
domingo, 19 de junho de 2016
Dias ao lado de pessoas
que não adivinham os nossos pensamentos,
que não nos falam com os olhos,
que não nos fazem brilhar os olhos
Para quê?
Quase todas as palavras estão vazias.
Os nossos olhos estão secos.
Como pode haver dias
sem um minuto de abraço sequer?
Como se ama sem abraçar?!
Esquecemo-nos de como se dançava
e a música não é mais preciosa.
A comunicação foi dizimada,
a meras p a l a v r a s.
E delas perdemos o som.
E delas perdemos o relevo,
rasgado na superfície...
Um mundo maravilhosamente fluido
e infinito
com a sua mudança perpétua
— cortado e embalado em palavras.
E a hipocrisia de já nem saber chorar,
sem palavras.
sexta-feira, 25 de março de 2016
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Amo os nomes das ruas,
o comboio gigante a chegar,
o sapateiro e o carpinteiro que tudo conseguem fazer,
o mecânico e o bailarino que criam o movimento.
Amo os saberes práticos.
Amo o tipógrafo.
A memória serve para os guardar a eles,
para prevenir os erros,
e para sabermos como é bom viver.
Para o resto servem os livros,
os dicionários, as cronologias e os documentos.
Estou melhor, obrigado. Semestre concluído. Sem orgulho, sem nada de festejos! O alívio e a alegria chegam. Agora tudo vai melhorar.
Aos poucos vejo regressar a mente optimista e inspirada que conhecia. Digo-lhe olá, tive saudades! A imaginação vai-se espreguiçando. Ainda nem se habitou à luz da janela, mas já está ansiosa por calçar os sapatos e ir lá para fora. As ideias mais pequeninas voltam a ter potencial para grandes aventuras.
O corpo alienado também regressou. Está a alimentar-se bem e dorme muito. E com ele regressa a auto-estima, simpática e provocadora no espelho. O corpo dança. Auto-estima é uma ferramenta para coreografar, por isso coreografo. Até no cais do comboio tive coragem! Estou crescido.
Agora é tempo de arrumar o quarto, que ficou um destroço de batalha. E para mim arrumar o quarto é sempre sinónimo de arrumar a vida.
Muito obrigado por todas as palavras de incentivo, até as mais breves. É óptimo saber que não estamos sozinhes. E é bom estar de volta.
(Foto por Gerard Girbes Berges, no Flickr)
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Na minha língua não mexem vocês!
A língua portuguesa faz parte de mim desde que nasci, e tenho com ela uma relação de intimidade extrema. Os meus pensamentos materializam-se nesta língua. É nesta língua que eu expresso o meu amor pelas pessoas mais importantes da minha vida, é com esta língua que eu tento motivar e dar alegria de viver a quem amo quando mais precisam. É nesta língua que eu escrevo reflexões desenterradas do mais profundo de mim antes de adormecer e mantenho um registo do meu crescimento e história. (Há quem diga que a língua portuguesa, pela sua riqueza, tem muitas mais potencialidades neste propósito do que outras línguas.)
E agora vêm uns fedelhos, que não sabem nada sobre comunicação nem sobre linguística, introduzir-se desta forma invasiva na língua com que eu sonho, e na língua com que todas e todos construímos a nossa história, e forçar-nos a escrever de determinada maneira?
Chamem-me sensível, mas injectar-lhe uma directiva que vem do exterior, mal fundamentada e prepotente, é um pouco desrespeitoso. É artificial, é desagradável, é sujo.
Sobre isso ando a escrever — e reescrever, e a arrumar, e a escrever outra vez (daí a demora) — alguns textos, que podem encontrar aqui.
domingo, 8 de novembro de 2015
Era difícil não amar uma vida tão simples e completa, oásis de paz e calma, isolado de um mundo em ruptura. Mas olhava para a neve onde nos declamávamos o dia todo, e éramos tão poucos, e tão frágeis...! Temia imenso, nada pelas nossas vidas, muito pelos textos em nós. A resistência que levávamos era tão pacífica como passiva, e eu precisava de agir. Não aguentava aquele intervalo e incerteza, e foi por isso que me escrevi.
(Publicado no blog das Histórias em 77 palavras, em resposta ao desafio nº 100.)


