Dias ao lado de pessoas
que não adivinham os nossos pensamentos,
que não nos falam com os olhos,
que não nos fazem brilhar os olhos
Para quê?
Quase todas as palavras estão vazias.
Os nossos olhos estão secos.
Como pode haver dias
sem um minuto de abraço sequer?
Como se ama sem abraçar?!
Esquecemo-nos de como se dançava
e a música não é mais preciosa.
A comunicação foi dizimada,
a meras p a l a v r a s.
E delas perdemos o som.
E delas perdemos o relevo,
rasgado na superfície...
Um mundo maravilhosamente fluido
e infinito
com a sua mudança perpétua
— cortado e embalado em palavras.
E a hipocrisia de já nem saber chorar,
sem palavras.
domingo, 19 de junho de 2016
sexta-feira, 25 de março de 2016
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Amo os nomes das ruas,
o comboio gigante a chegar,
o sapateiro e o carpinteiro que tudo conseguem fazer,
o mecânico e o bailarino que criam o movimento.
Amo os saberes práticos.
Amo o tipógrafo.
A memória serve para os guardar a eles,
para prevenir os erros,
e para sabermos como é bom viver.
Para o resto servem os livros,
os dicionários, as cronologias e os documentos.
Estou melhor, obrigado. Semestre concluído. Sem orgulho, sem nada de festejos! O alívio e a alegria chegam. Agora tudo vai melhorar.
Aos poucos vejo regressar a mente optimista e inspirada que conhecia. Digo-lhe olá, tive saudades! A imaginação vai-se espreguiçando. Ainda nem se habitou à luz da janela, mas já está ansiosa por calçar os sapatos e ir lá para fora. As ideias mais pequeninas voltam a ter potencial para grandes aventuras.
O corpo alienado também regressou. Está a alimentar-se bem e dorme muito. E com ele regressa a auto-estima, simpática e provocadora no espelho. O corpo dança. Auto-estima é uma ferramenta para coreografar, por isso coreografo. Até no cais do comboio tive coragem! Estou crescido.
Agora é tempo de arrumar o quarto, que ficou um destroço de batalha. E para mim arrumar o quarto é sempre sinónimo de arrumar a vida.
Muito obrigado por todas as palavras de incentivo, até as mais breves. É óptimo saber que não estamos sozinhes. E é bom estar de volta.
(Foto por Gerard Girbes Berges, no Flickr)
quarta-feira, 11 de novembro de 2015
Na minha língua não mexem vocês!
A língua portuguesa faz parte de mim desde que nasci, e tenho com ela uma relação de intimidade extrema. Os meus pensamentos materializam-se nesta língua. É nesta língua que eu expresso o meu amor pelas pessoas mais importantes da minha vida, é com esta língua que eu tento motivar e dar alegria de viver a quem amo quando mais precisam. É nesta língua que eu escrevo reflexões desenterradas do mais profundo de mim antes de adormecer e mantenho um registo do meu crescimento e história. (Há quem diga que a língua portuguesa, pela sua riqueza, tem muitas mais potencialidades neste propósito do que outras línguas.)
E agora vêm uns fedelhos, que não sabem nada sobre comunicação nem sobre linguística, introduzir-se desta forma invasiva na língua com que eu sonho, e na língua com que todas e todos construímos a nossa história, e forçar-nos a escrever de determinada maneira?
Chamem-me sensível, mas injectar-lhe uma directiva que vem do exterior, mal fundamentada e prepotente, é um pouco desrespeitoso. É artificial, é desagradável, é sujo.
Sobre isso ando a escrever — e reescrever, e a arrumar, e a escrever outra vez (daí a demora) — alguns textos, que podem encontrar aqui.
domingo, 8 de novembro de 2015
Era difícil não amar uma vida tão simples e completa, oásis de paz e calma, isolado de um mundo em ruptura. Mas olhava para a neve onde nos declamávamos o dia todo, e éramos tão poucos, e tão frágeis...! Temia imenso, nada pelas nossas vidas, muito pelos textos em nós. A resistência que levávamos era tão pacífica como passiva, e eu precisava de agir. Não aguentava aquele intervalo e incerteza, e foi por isso que me escrevi.
(Publicado no blog das Histórias em 77 palavras, em resposta ao desafio nº 100.)
quinta-feira, 15 de outubro de 2015
A partir de hoje sou professor.
Tenho feito muitos workshops e masterclasses de danças urbanas, dados por bailarin@s e coreógraf@s excelentes que eu admiro mas que, no entanto, não fazem a mínima ideia do que significa ensinar. Eu posso não conseguir reproduzir as coreografias mais complicadas que se ensinam por aí, posso por vezes ser desajeitado a dançar, e o meu freestyle está tão destreinado que enjoa — mas de uma coisa eu estou certo: eu sei ensinar.
Não quero tirar o mérito a ninguém. Admiro praticamente tod@s @s coreógraf@s de danças urbanas mais conhecid@s em Portugal. Mas é muito fácil cairmos na rotina de chegar, passar uma coreografia e ir embora. Muita gente, inclusivé as pessoas mais aclamadas, fazem isso. "Eu não vou estar a chatear-vos com o aquecimento, porque vocês tiveram outra aula ainda agora, portanto vou começar já a passar-vos a coreografia."
De todas as coisas que um/a professor/a de dança pode fazer, passar uma coreografia é a mais fácil. É a que dá mais garantias de que @s alun@s vão conseguir fazer tudo bem e ficar satisfeit@s. Transmitir a alegria pela dança... é muito mais difícil.
Mas o que é que eu quero deixar para os meus alunos e as minhas alunas? Quero fornecer-lhes uma dose periódica de coreografias para dançarem durante umas semanas e depois esquecerem? Que infrutífero! O que eu quero deixar-lhes é algo mais perene.
Quero que, quando uma música começar a tocar, a vergonha não lhes tente domar os pés e não os obrigue a ficarem a um canto da sala; em vez disso quero dar-lhes um dicionário de passos — por mais pequeno que seja — que lhes permita aproveitar realmente a música e divertirem-se. Talvez até convençam @s amig@s a dançar também. E depois quero que aprendam a explorar sozinh@s todos os movimentos que o corpo humano permite fazer, porque assim poderão inventar os seus próprios passos. Quero que a dança seja mais uma ferramenta para se exprimirem, porque falar ou escrever não chega para dizer metade do que sentimos.
E mesmo assim tudo isso ainda é um objectivo pouco ambicioso. Tudo o que faço, faço por um motivo, e para mim o objectivo tem que ser um pouco mais nobre:
- Que a dança possa ajudar a construir e a manter a auto-estima.
- Que possamos superar medos — medo da dança, medo do palco, medo da vida.
- Que todas as semanas tenhamos umas horas onde podemos comunicar de outras maneiras para além da linguagem verbal, porque isso é importante.
- Que possamos construir em conjunto uma pequena obra de arte que é de todes igualmente.
- Que saibamos ouvir-nos. Que nos ajudemos mutuamente e que ensinemos coisas entre nós, mais do que ser só o professor a ensinar.
- Que possamos descobrir o nosso corpo, porque ele é capaz de fazer tantas coisas que nós nunca imaginámos. Se o conhecermos melhor, isso vai ajudar-nos em toda a vida.
- E podia dizer tanto mais aqui...
É por não haver nada destas coisas que começo a ficar mesmo farto de workshops e masterclasses.
Hoje uma aluna minha estava um pouco atrapalhada com um passo da coreografia. Tentei ajudá-la, devagar e com paciência, mas a frustração começou a aparecer-lhe. Insisti que continuasse a tentar. Corri o risco de ela se achar incapaz e de desistir, de ficar chateada consigo própria e de se ir sentar. Com o ar mais desajeitado de sempre, esforcei-me por transmitir-lhe que ficava ali todo o tempo que ela precisasse, porque acreditava nela, e convenci-a a continuar. E por isso hoje foi diferente. Hoje ela não foi para casa com uma coreografia nova — foi para casa com uma capacidade nova. E da próxima vez que ela se deparar com uma dificuldade, talvez se lembre do dia de hoje e isso a motive a tentar ir um pouco mais longe.
Eu dou aulas de Hip Hop há dois anos. Mas só a partir de hoje sou professor.


