domingo, 8 de novembro de 2015

Era difícil não amar uma vida tão simples e completa, oásis de paz e calma, isolado de um mundo em ruptura. Mas olhava para a neve onde nos declamávamos o dia todo, e éramos tão poucos, e tão frágeis...! Temia imenso, nada pelas nossas vidas, muito pelos textos em nós. A resistência que levávamos era tão pacífica como passiva, e eu precisava de agir. Não aguentava aquele intervalo e incerteza, e foi por isso que me escrevi.

(Publicado no blog das Histórias em 77 palavras, em resposta ao desafio nº 100.)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

A partir de hoje sou professor.

Tenho feito muitos workshops e masterclasses de danças urbanas, dados por bailarin@s e coreógraf@s excelentes que eu admiro mas que, no entanto, não fazem a mínima ideia do que significa ensinar. Eu posso não conseguir reproduzir as coreografias mais complicadas que se ensinam por aí, posso por vezes ser desajeitado a dançar, e o meu freestyle está tão destreinado que enjoa — mas de uma coisa eu estou certo: eu sei ensinar.

Não quero tirar o mérito a ninguém. Admiro praticamente tod@s @s coreógraf@s de danças urbanas mais conhecid@s em Portugal. Mas é muito fácil cairmos na rotina de chegar, passar uma coreografia e ir embora. Muita gente, inclusivé as pessoas mais aclamadas, fazem isso. "Eu não vou estar a chatear-vos com o aquecimento, porque vocês tiveram outra aula ainda agora, portanto vou começar já a passar-vos a coreografia."

De todas as coisas que um/a professor/a de dança pode fazer, passar uma coreografia é a mais fácil. É a que dá mais garantias de que @s alun@s vão conseguir fazer tudo bem e ficar satisfeit@s. Transmitir a alegria pela dança... é muito mais difícil.

Mas o que é que eu quero deixar para os meus alunos e as minhas alunas? Quero fornecer-lhes uma dose periódica de coreografias para dançarem durante umas semanas e depois esquecerem? Que infrutífero! O que eu quero deixar-lhes é algo mais perene.

Quero que, quando uma música começar a tocar, a vergonha não lhes tente domar os pés e não os obrigue a ficarem a um canto da sala; em vez disso quero dar-lhes um dicionário de passos — por mais pequeno que seja — que lhes permita aproveitar realmente a música e divertirem-se. Talvez até convençam @s amig@s a dançar também. E depois quero que aprendam a explorar sozinh@s todos os movimentos que o corpo humano permite fazer, porque assim poderão inventar os seus próprios passos. Quero que a dança seja mais uma ferramenta para se exprimirem, porque falar ou escrever não chega para dizer metade do que sentimos.

E mesmo assim tudo isso ainda é um objectivo pouco ambicioso. Tudo o que faço, faço por um motivo, e para mim o objectivo tem que ser um pouco mais nobre:

  • Que a dança possa ajudar a construir e a manter a auto-estima.
  • Que possamos superar medos — medo da dança, medo do palco, medo da vida.
  • Que todas as semanas tenhamos umas horas onde podemos comunicar de outras maneiras para além da linguagem verbal, porque isso é importante.
  • Que possamos construir em conjunto uma pequena obra de arte que é de todes igualmente.
  • Que saibamos ouvir-nos. Que nos ajudemos mutuamente e que ensinemos coisas entre nós, mais do que ser só o professor a ensinar.
  • Que possamos descobrir o nosso corpo, porque ele é capaz de fazer tantas coisas que nós nunca imaginámos. Se o conhecermos melhor, isso vai ajudar-nos em toda a vida.
  • E podia dizer tanto mais aqui...

É por não haver nada destas coisas que começo a ficar mesmo farto de workshops e masterclasses.

Hoje uma aluna minha estava um pouco atrapalhada com um passo da coreografia. Tentei ajudá-la, devagar e com paciência, mas a frustração começou a aparecer-lhe. Insisti que continuasse a tentar. Corri o risco de ela se achar incapaz e de desistir, de ficar chateada consigo própria e de se ir sentar. Com o ar mais desajeitado de sempre, esforcei-me por transmitir-lhe que ficava ali todo o tempo que ela precisasse, porque acreditava nela, e convenci-a a continuar. E por isso hoje foi diferente. Hoje ela não foi para casa com uma coreografia nova — foi para casa com uma capacidade nova. E da próxima vez que ela se deparar com uma dificuldade, talvez se lembre do dia de hoje e isso a motive a tentar ir um pouco mais longe.

Eu dou aulas de Hip Hop há dois anos. Mas só a partir de hoje sou professor.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Em paz

26 de Junho de 2015 nas primeiras horas do dia.

Quando tudo me parece familiar e seguro, e sinto o aconchego quente das pequenas coisas maravilhosas... Ou quando choro encolhido nas pedras da rua e atacado pela chuva impiedosa, desamparado, desnudo... É aí mesmo, nessa aresta!, que está a beleza da minha vida.

A natureza é tão perfeita e equilibrada que me leva a crer que a vida deve exactamente tantas horas à fogueira aconchegante como ao vento gélido. Mas essa é uma simetria que dói aceitar. Afinal não é suposto termos mais horas de alegria do que desespero...? Que se dane o rácio. A felicidade está em nós, na forma como vemos as coisas, como agimos e somos.

Se a felicidade é um caminho e não um destino, então eu posso ser a pessoa mais feliz do mundo nas vésperas da mais temível avaliação! A felicidade não é um alívio que só acontece depois de eu ter um emprego, uma família e muito sucesso. Não é uma recompensa! A felicidade não é um alívio que tenha que esperar que eu chegue à meta de acabar estas avaliações todas, daqui a uns dias. A felicidade não é um alívio que tenha que esperar que o dia chegue ao fim para me reconfortar na cama. Cada segundo que eu esperar para ser feliz será um segundo completamente desperdiçado. A felicidade é um caminho, não um destino, e por isso não se espera para chegar lá; anda-se.

É esta a magia do último comboio, a deslizar iluminado pela noite silenciosa e simples: deixa-me pensar. E quando saio dele a brisa fresca da noite pede-me para continuar.

Deixo-me ascender sozinho nas escadas rolantes, tão leve como uma alma que se eleva para o céu. Este espaço é paradoxal — nem é exterior nem interior! — e a luz branca inunda a matéria do vidro. De repente sinto-me estupidamente feliz, talvez como nunca estive na vida. Do meio do meu peito escorre um pouco de excitação, e espalha-se pelas veias.

Saio da estação e acredito que não vou sobreviver à viagem de carro até casa.
Em paz.

Não estou mesmo a conseguir imaginar o dia de amanhã.
Não consigo imaginar acabado aquele livro que tenho estado a fazer com aquele grupo maravilhoso.
E estou bem.

Se eu morresse agora, ia deixar um monte de coisas por acabar...
Mas se eu morrer só daqui a cem anos também vou deixar um monte de coisas por acabar. Não há outra maneira, a morte é inesperada, e esperar por ela é morrer. Se eu estiver preparado quando a morte chegar, então ela já me encontrará morto.

Se eu morresse agora queria que continuassem o que eu comecei.
Não para que permanecesse a minha memória ou a minha fama, mas porque queria que aquilo que eu deixasse fosse tão bom e tão benéfico que valesse a pena continuarem a fazê-lo. Se eu morresse agora queria que as minhas alunas e os meus alunos continuassem a dançar, não para se lembrarem de mim e me fazerem uma homenagem, mas porque essa dança as deixava felizes, e era uma motivação para se superarem a si próprios todos os dias. Quero acima de tudo que o bem que eu tenha feito ao mundo permaneça.

A estrada infinita, completamente lisa, é interrompida pelo peso da Nuxa, a minha viatura. Tão pequena e frágil durante o dia, mas tão grande e robusta no meio desta noite vazia e desta estrada lisa. Ela tem-me tornado tudo tão mais próximo, tão mais aconchegado e simples. Arrependo-me de todas as vezes que disse que odiava carros. Sinto vontade de abraçá-la.

O meu alívio e a minha felicidade não têm que esperar que eu chegue a casa para dormir daqui a pouco. Estou feliz. Acho mesmo que vou morrer na viagem de carro até casa, por isso é melhor escrever tudo antes de ligar o motor. Entre mim e o volante, o computador aquece-me o colo, e aconchega-me tanto. Ele nunca liga depressa, mas desta vez ligou. E escrevi tudo antes de me entregar à estrada, confiante que o computador fosse recuperado do meio dos escombros e que estes bytes de texto pudessem sossegar as pessoas que amo.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

"Amo-te tempo"

Talvez não houvesse frase mais antípoda ao modo de vida que levo, que levamos. É sempre o tempo o culpado, o impedimento, o ditador. Durante os intervalos falamos sobre isso, eu e colegas, e de pouco mais.

Imaginem como me fascinei ao deparar-me com o pensamento exactamente contrário. De facto, o optimismo é uma coisa poderosa. Eu também quero amar o tempo. Eu um dia hei-de amar o tempo... Por agora estamos em reconciliação. Já estivemos bem pior.

Trata-se de uma carta do artista contemporâneo Felix Gonzalez-Torres para o seu amante em 1988. Tem tudo a ver com a sua obra "Untitled" (Perfect Lovers), que é uma metáfora do amor usando... relógios. Surpreendente, não é? Sobre esta peça pode ler-se mais aqui.

Esta obra, por indicação do artista, só pode ser apresentada sobre uma parede azul-claro. É tão fácil imaginar a brancura de um hospital... o silêncio... a espera... mas uma espera sincronizada, e de certa forma, em paz. É trágico e belo ao mesmo tempo.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

O Fim da História

Tive uma infância de espera, deslizada pelo virtual, solitária. Esperei por nascer para o mundo, e só há três ou quatro anos nasci e vi o mundo pela primeira vez. Se antes era um satélite desmotivado à volta da Terra, desejo agora ser uma árvore com raízes em todo o planeta. Quero estar ligado a um pouco de tudo, enlear-me com a Terra e no fim voltar a ser Terra. É isso que quero.

Mas tive o infortúnio de chegar a este mundo pouco antes dele se transformar em ruído, e enquanto se desintegra eu desespero por beber cada gota de tudo o que ainda não foi nivelado. Interessam-me todas as coisas. Anseio por todas as coisas.

Se alguma vez tu e eu partilhámos um momento espontâneo e verdadeiro, se decidimos preencher um segmento do nosso tempo com esta actividade nostálgica de termos corpo e massa, (movimento mais que pensamento), se pelos mais breves momentos tentámos adivinhar os pensamentos que nos habitavam, então és importante para mim. Estou grato por teres partilhado comigo o prazer da tua fisicalidade, por teres existido comigo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

No Metro enlatado não interessa para que direcção estamos virad@s. O que interessa é que nos estamos a deslocar, ou a ser deslocados, e somos apenas pontos. Não precisamos de nos segurar, porque o silêncio entre os pontos que somos sustém-nos como um campo magnético. A pessoa que põe música no Metro, consciente do seu poder, decidiu não iniciar nenhuma revolução. Em vez disso prefere interrogar-nos suavemente, como quem faz uma festinha paternalista. Em plena hora de ponta, "Mad World" de Gay Jules. À noite, quando já não há ninguém, o poder de "Precious", dos Depeche Mode.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Resiliência...

Estou exausto e não fiz nada. Decido ir almoçar à Cidade Universitária, para ver se me anima a comida deliciosa. Gostava de ter companhia, mas na verdade não sei bem de quem.

Caminho para a saída e encontro a professora Sara, saída de uma sala. Vai na mesma direcção. Pergunta-me "como é que isso vai", sorridente, e caminhamos lado a lado. Desabafo que vai difícil, que durmo pouco. Ela não hesita em partilhar que também é assim, e a conversa prende-nos. Tenta adiantar trabalho à noite e depois custa-lhe a acordar, anda morta de cansaço. Eu sei. Toda a turma conhecia a sua dependência de café, mais do que é comum ver-se no corredor de Design. Digo-lhe que todas as manhãs ponho três despertadores e mesmo assim hoje não ouvi nenhum e não consegui acordar a tempo. Ela põe dois, um deles é daqueles tipo "bomba". Brinco que se os nossos professores têm os mesmos problemas que nós, onde pode estar a nossa esperança? Ela ri-se, e pede levianamente que não vá espalhar esta confissão por aí. Despedimo-nos a sorrir quando os nossos percursos se bifurcam.

A descer a Calçada Nova de São Francisco percebo um pouco melhor o meu modo de funcionar. Ao longo de cada dia, uma variedade de coisas boas e más vão surgindo e alternando. Eu acaricio as coisas boas, como a conversa com a professora Sara, ou o sorriso que vi na cara de uma mulher na Rua Ivens, e é nessas coisas que mais penso. As coisas más, tento não pensar muito. Há quem chame a isto resiliência. Não sei.

Na estação de Metro de Marquês de Pombal, percorro o cais verde-pálido. Gosto de caminhar na faixa amarela, e olho para cima. As luzes fluorescentes em tubo formam uma linha ao longo da plataforma. Deixo que vão saíndo do meu campo de visão por cima, uma de cada vez, como créditos a passar no final de um filme. Acho que só me entristece porque foi tão de repente. Sim, eu sei que estás aí para me abraçar e mimar sempre que eu precisar. Mas de um momento para o outro tiraste-me a possibilidade de fazer uma das coisas que mais gosto. E não poderei fazê-la com outra pessoa, porque tu és único. Essa é a parte que custa.

Ao meu lado na carruagem, duas turistas brasileiras falam com dúvida de estações e percursos. Pergunto-lhes se precisam de ajuda, agradecem que não. Mas a dúvida delas reaparece e acabo por me levantar, para tocar com o dedo na estação do Rossio, no diagrama da rede. Explico-lhes que podem mudar em Baixa-Chiado, mas que não vale a pena, porque se saírem em Restauradores estão logo no Rossio. Elas já sabiam. Vão apanhar o 28 para passear pela cidade, mas já conhecem grande parte dela. Saem nos Restauradores, agradecem mais uma vez e desejo-lhes bom passeio. Eu saio em Baixa-Chiado e deixo que sejam as escadas rolantes a levar-me até lá a cima, como é tão raro. Já na Faculdade, ponho a hipótese de utilizar pela primeira vez o elevador para ir até ao cacifo...