terça-feira, 9 de dezembro de 2014

No Metro enlatado não interessa para que direcção estamos virad@s. O que interessa é que nos estamos a deslocar, ou a ser deslocados, e somos apenas pontos. Não precisamos de nos segurar, porque o silêncio entre os pontos que somos sustém-nos como um campo magnético. A pessoa que põe música no Metro, consciente do seu poder, decidiu não iniciar nenhuma revolução. Em vez disso prefere interrogar-nos suavemente, como quem faz uma festinha paternalista. Em plena hora de ponta, "Mad World" de Gay Jules. À noite, quando já não há ninguém, o poder de "Precious", dos Depeche Mode.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Resiliência...

Estou exausto e não fiz nada. Decido ir almoçar à Cidade Universitária, para ver se me anima a comida deliciosa. Gostava de ter companhia, mas na verdade não sei bem de quem.

Caminho para a saída e encontro a professora Sara, saída de uma sala. Vai na mesma direcção. Pergunta-me "como é que isso vai", sorridente, e caminhamos lado a lado. Desabafo que vai difícil, que durmo pouco. Ela não hesita em partilhar que também é assim, e a conversa prende-nos. Tenta adiantar trabalho à noite e depois custa-lhe a acordar, anda morta de cansaço. Eu sei. Toda a turma conhecia a sua dependência de café, mais do que é comum ver-se no corredor de Design. Digo-lhe que todas as manhãs ponho três despertadores e mesmo assim hoje não ouvi nenhum e não consegui acordar a tempo. Ela põe dois, um deles é daqueles tipo "bomba". Brinco que se os nossos professores têm os mesmos problemas que nós, onde pode estar a nossa esperança? Ela ri-se, e pede levianamente que não vá espalhar esta confissão por aí. Despedimo-nos a sorrir quando os nossos percursos se bifurcam.

A descer a Calçada Nova de São Francisco percebo um pouco melhor o meu modo de funcionar. Ao longo de cada dia, uma variedade de coisas boas e más vão surgindo e alternando. Eu acaricio as coisas boas, como a conversa com a professora Sara, ou o sorriso que vi na cara de uma mulher na Rua Ivens, e é nessas coisas que mais penso. As coisas más, tento não pensar muito. Há quem chame a isto resiliência. Não sei.

Na estação de Metro de Marquês de Pombal, percorro o cais verde-pálido. Gosto de caminhar na faixa amarela, e olho para cima. As luzes fluorescentes em tubo formam uma linha ao longo da plataforma. Deixo que vão saíndo do meu campo de visão por cima, uma de cada vez, como créditos a passar no final de um filme. Acho que só me entristece porque foi tão de repente. Sim, eu sei que estás aí para me abraçar e mimar sempre que eu precisar. Mas de um momento para o outro tiraste-me a possibilidade de fazer uma das coisas que mais gosto. E não poderei fazê-la com outra pessoa, porque tu és único. Essa é a parte que custa.

Ao meu lado na carruagem, duas turistas brasileiras falam com dúvida de estações e percursos. Pergunto-lhes se precisam de ajuda, agradecem que não. Mas a dúvida delas reaparece e acabo por me levantar, para tocar com o dedo na estação do Rossio, no diagrama da rede. Explico-lhes que podem mudar em Baixa-Chiado, mas que não vale a pena, porque se saírem em Restauradores estão logo no Rossio. Elas já sabiam. Vão apanhar o 28 para passear pela cidade, mas já conhecem grande parte dela. Saem nos Restauradores, agradecem mais uma vez e desejo-lhes bom passeio. Eu saio em Baixa-Chiado e deixo que sejam as escadas rolantes a levar-me até lá a cima, como é tão raro. Já na Faculdade, ponho a hipótese de utilizar pela primeira vez o elevador para ir até ao cacifo...

sábado, 18 de outubro de 2014

Lisboa II (Outro olhar, outro descrever)

Escrito pouco antes de começar o 1º ano na Universidade.

É lindo como tudo se renova constantemente. É incrível como o ser humano consegue condenar o amor e exaltar a violência e a guerra. É assustadora a facilidade com que estala uma guerra.

Imagens grandes sucedem-se à nossa frente tão rápido... Cinco pessoas esperam num banco pelo comboio. Na linha oposta o comboio acelera.

Emerjo do subterrâneo e sinto-me a ascender, não para o sol, mas para a beleza do mundo terrestre.

Tanta gente no bocado de terra e cimento que consigo avistar com os meus olhos longos. Tantas me podem fazer mal — com uma simples lâmina morro — tantas outras serão tão fascinantes, algumas desejosas de intriga e vingança, outras desejosas de dar e iluminar, criar a paz. Umas vivas, outras apenas a sobreviver — por medo e não por necessidade, porque a miséria nunca impediu ninguém de viver a sério. Viver é ver em cada fábrica suja, em cada molho de chaves, em cada linha de tabela cheia de números sem lógica, alguma beleza. E embelezar o mundo, torná-lo melhor.

A calçada larga que tenho à frente é um universo maior que Lisboa. Sobre as pedras calcárias procuro ver o bom da humanidade em cada rosto. É assim que eu sou e gosto de ser. Aprecio o equilíbrio e o sol. Esta pode ser a minha última semana de sossego. Mas estou pronto.

Conflitos

O teatro vive de conflitos porque também a vida é feita de conflitos. Se não houver conflitos, qual é o interesse da vida?

Há uns tempos estava a olhar para o topo do Belogue (que sempre foi de cariz muito pessoal) e a aperceber-me como o slogan já não faz o mesmo sentido que fazia quando o pus ali. É uma guerra há muito encerrada e resolvida! A preocupação que tem ocupado a minha mente, já desde há um ano para cá, mas principalmente nos últimos meses, resumi-a da seguinte maneira:

Conflitos com o tempo e o espaço

Para a minha história fica então o slogan anterior:

Conflitos entre o lado direito e o lado esquerdo do cérebro

Creio que se a minha vida fosse transformada em livro, estes podiam muito bem ser os títulos dos capítulos. São uma espécie de marcos na estrada, e tenho imensa curiosidade em saber qual será o próximo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Afinal eu até gosto de velocidade

Afinal eu até gosto de velocidade.

Quando não tenho uma mochila pesada às costas, um prazo a ultrapassar-me, ou a respiração ofegante, eu adoro correr e sentir o vento na cara.
Eu e o tempo e corremos lado a lado. Acompanho-o. Correr ao lado de alguém é mágico. Sintonizados. Temos o poder. Temos o mundo mais perto. Aos nossos pés. Correr ao lado do tempo é estar ligado ao mundo e à natureza.
A cidade é uma corrida. Correr é fluir, correr é vida. A vida corre. A vida é rápida, mas não é curta.
A vertigem faz-nos sentir vivos.
Eu aproveito cada segundo da vida. Há coisas que se aproveitam rápido.

Acima de tudo, eu gosto de ter o poder de controlar a minha velocidade.

Será que este nó está desfeito de vez...?

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Ensino Superior Inaceitável

Há muito tempo que não escrevia nada aqui em jeito de reclamação. Pois há algo que me anda a fazer comichão. Trago-vos uma pergunta:

Como é que as notas de todos os alunos numa disciplina de um curso superior podem dar uma média de 3 em 20?

  • O professor não tem jeitinho nenhum para ensinar.
  • O professor está-se completamente a cagar.
  • O professor é um tirano.
  • O professor não quer mais gente formada para não ter concorrência na investigação.
  • Todas as opções anteriores.
  • Todos os alunos da faculdade são burros, ou nenhum estudou, ou todos estavam de ressaca.

Como a opção F me parece estatisticamente improvável, resta-me dizer que por mim o "docente" era era exilado no Pólo Norte e proibido de ser professor (obviamente).

No meu curso, se alguma disciplina acabasse o ano com 3 de média, o que os meus professores fariam era reunir-se, identificar problemas e procurar soluções. Média de 3 significa que algo está mal, e que a disciplina não está a cumprir os objectivos devidos. Se é inútil, tira-se do plano de estudos. Se é importante, então temos que fazer alguma coisa. No entanto, há faculdades e cursos que não funcionam assim, incrivelmente.

Se eu pagasse mil e tal euros de propinas numa universidade e me pusessem à frente uma cadeira destas, eu armava um escândalo. E eu não sou de armar escândalos, mas estas coisas precisam de visibilidade. Costumam dizer-me que "não há nada a fazer", que "eles é que têm o poder". Ora, para haver uma revolução tem que se começar por algum lado — se tiver que ser uma pessoinha insignificante no estrato mais baixo da pirâmide social, que seja! Tem que gritar muito para se fazer ouvir, mas que grite!

Sou assumidamente alérgico a serviços públicos de má qualidade. Detesto pessoas que fazem o mínimo para ganhar o seu salário. Acho que quando o desemprego atinge níveis tão altos, a incompetência preguiça, falta de esforço e snobice em geral são ainda mais condenáveis, porque no desemprego existem milhares de pessoas que provavelmente fariam esse trabalho melhor. Neste momento, centenas de professores do ensino básico ou secundário estão em casa sem horas lectivas atribuídas, e de certeza conseguiam ensinar melhor os alunos dessa faculdade, e obter melhores resultados.

O ensino superior é uma coisa séria. Não pode ter corrupções, jogos de interesses ou qualquer tipo de má gestão. Está mal? Resolve-se!

Está na hora de começarmos a exigir mais pela qualidade do ensino, e de não nos conformarmos desta maneira submissa!


P.S.: Podia ter escrito um artigo sobre o estado do ensino básico e secundário em Portugal, mas se o quisesse fazer não saberia pode onde começar, e talvez acabasse por estragar o teclado do computador com a raiva. Fica para outra ocasião.

P.S.2: Acho que o grafismo deste blog não está preparado para gritos. É demasiado suave!

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

por favor pára

(Clica na imagem para ler)