O bem mais precioso que tenho é a memória. Por mais que a minha insignificante história se possa pendurar em três ou quatro datas e locais, nada terá para mim mais valor do que os pensamentos que me deixaram acordado, os actos que errei e as pessoas que admirei. Se dizem que o bater de asas de uma borboleta pode causar um maremoto no outro lado do mundo, então todas as pessoas que existiram foram importantes, e o esboço de História que tentamos escrever nos livros nunca passará de apenas matemática...
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
quarta-feira, 2 de julho de 2014
E o autocarro parou...
Manhã enlatado no autocarro para a Estação de Coina. Oscilava entre o trabalho no computador e o sono, frustrado pelas interrupções que me causava. Foi nos caminhos de mau asfalto e sol ardente por entre o pinhal, quando já se via o reluzir dos vidros do oásis da gare e os carros estacionados já preenchiam a berma, que o autocarro parou. Parou mesmo antes da última rotunda, incapaz de percorrer a última centena de metros. As cabeças ensonadas levantaram-se e sorriram levemente, enquanto o motorista tentava reavivar o motor. No silêncio sem eco do espaço trespassado pelo sol puro e baixo da manhã, disseram "Vamos a pé!". Sairam. Iniciaram a micro-epopeia.
Eram três minutos de uma subida ligeira, até ao monumento. Em paralelo à escalada, o comboio penetrava na cena, rectilíneo, e aterrava lentamente na estação, pronto para nos receber.
Os corpos deixaram, por poucos minutos, de ser módulos coloridos e encaixados, para povoarem a paisagem estéril com as suas posições aleatórias e as suas diferentes formas de andar. Pela primeira vez em muito tempo, aqueles corpos andaram sem nada entupir. Cansados, divertidos, indignados, energéticos, fascinados ou indiferentes. O sol, paternal, observava a migração da tribo moderna, que reaprendia a deslocar-se. Tinham saudades de ver a redondeza da Terra.
E eu tive um vislumbre de um mundo sem transportes, um mundo pré-veloz, um mundo onde não poderíamos caminhar ao sol na mesma direcção sem sermos comunidade e sem nos olharmos de frente uns aos outros... Quem se lembrou de um dia acelerar a vida humana?
sexta-feira, 13 de junho de 2014
♫ S'étient le soleil
Defini uma hora para ir para a cama e estou feliz por isso. Tenho um monte de trabalho em mãos, mas hoje vou saber fazer só uma parte e poder dormir. O meu irmão veio ter comigo. Ficou a ver-me trabalhar na minha cama, e adormeceu. Está tanto calor... Estamos ambos de tronco nu e com calções iguais. Doem-me as costas. Deito-me mesmo ao lado dele, olho para o tecto, e apercebo-me de como é bom viver. A vida é difícil, mas vai-se fazendo, disse isso tantas vezes hoje. Encosto-me à parede e encontro o fresco que procurava. Eu caminho para a organização, para uma vida arrumada e com paz, onde posso fazer o que gosto e tenho tempo para amar. Uma vida menos vítima da velocidade. E é possível! Esta é apenas uma fase transitória. É bom viver. E vai ser melhor. Aguenta, Tomás. Aguentem, amigos, porque às vezes tenho vontade de ser um só com os meus amigos. Quando isso acontece é quando me sinto melhor... =)
domingo, 8 de junho de 2014
Inércia
Inércia dos diabos...
Escrevo porque há uns tempos me perguntei: "Quais são as maiores certezas que há dentro de ti? Aquelas que não mudam nos momentos em que estás eufórico e nos momentos em que te apetece desistir de tudo e fugir...?", e na altura só me lembrei desta: gosto/preciso de escrever. Às vezes resolve as coisas. Só que depois tenho vontade de publicar aqui, porque este sempre foi o meu melhor diário, e por isso tenho medo de escrever o que não vos interesse, ou o que não fique à altura. Isto é um diário muito ambíguo, muito indisponível! Mesmo assim, talvez o prefira porque me sinto só, e aqui sei que sou lido por quem me quer bem. Obrigado.
Podia pegar numa página completamente em branco, dar-lhe um título e chamar-lhe arte, porque ia expressar o que estou a sentir agora, mas mesmo assim seria insuficiente...
Eu que sempre me entreti a produzir alguma coisa, não me apetece fazer nada. Tenho ideias... Caminhos divertidos e desafiantes que se apresentam à minha frente, ascendendo a resultados dourados. Lá ao fundo vejo um Tomás mais crescido, mais capaz, cada vez mais auto-disciplinado. Não obstante, não os quero percorrer.
Não quero dançar. Abala-me reparar nisso. Ou quero dançar, mas não quero sair da cadeira. Não é preguiça, muito menos procrastinação, é simples inércia, polar vegetal, é muito diferente. É ter um mau-contacto cá dentro que me impede de funcionar. Estou desligado. Estou com o espírito em pausa, e a cor temporariamente indisponível. Quero dormir, mas dói-me ir para a cama sabendo que não fiz absolutamente nada.
Que agonia.
domingo, 4 de maio de 2014
experimentar...
dormir hora e meia, que é um ciclo de sono,
amanhã há mais.
faço no caminho.
no caminho vou dormir.
não pode ser.
logo se vê...
fiquei com o branco na cabeça,
o branco daquele texto da minha amiga
que desvanecia...
também ela estava a cair
quando o escreveu.
espera!, antes de ires,
eu sei que não gostas nada de versos...
mas vai experimentar.
se queres ser designer tens que experimentar.
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Em breves momentos foi drenada de mim toda a vontade. Não doeu, escorreu apenas pelo meu corpo até ao chão.
A vontade de acabar o curso, a vontade de amar. Fiz-me crente de que não poderia amar ninguém, porque me faltam uma série de capacidades básicas, sou inapto.
As outras vontades, não sei se ainda cá pingam ou se foram com as primeiras.
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quinta-feira, 3 de abril de 2014
A Cidade Rápida
O mesmo caminho de sempre. Umas vezes fá-lo cansado e a desejar que acabe, outras vais atarefado a registar as epifanias geniais que te vão surgindo. O que é engraçado é que há sempre algo mais para descobrir. Desta vez é de noite e nunca passam carros na rua.
Bate com os dedos no mármore daquela parede para descobrires que o não é, e para teres o privilégio de sentir o som metálico suave e reverberante que as placas fazem. Ouve mais uma vez. E mais uma. Como é agradável batucar ali!
Aquilo seria um gato? Volta atrás, vais ver que não dói. É mesmo um gato, e estacou a sua marcha imponente a meio do beco quando te viu. Como irá reagir? De repente começa a correr em tua direcção, mas mal se aproxima vira à esquerda para fugir de ti. Não confies que fundiu o seu preto com o da noite! Olha de novo para a frente, lá vai ele a correr mesmo debaixo da luz dos candeeiros! Com uma pontaria matemática enfiou-se num buraco da parede. Como pode caber ali dentro? Vai lá ver. Liga a luz do telemóvel, para descobrires uma sala em ruínas de uma cave e dois olhos brilhantes fixos em ti. Como o buraco é demasiado pequeno para ti, continua o teu caminho, anotando a morada para depois poderes vir espreitar no buraco com uma amiga de explorações.
Por andares sem pressa e desperto talvez descubras a altura dos prédios, e aprecies como é diferente o seu último andar. E porque olhaste para cima saberás que as árvores, de articulações despidas, já têm pequenas flores brancas. Aproveita também para ficar a saber que sítio é aquele, que nunca percebeste. Basta aproximares-te um pouco mais...
Antes de chegares ao teu destino ainda tens tempo para desacelerar mais um pouco e alegrares-te com os dois cães que brincam livres, um preto e um branco, enquanto as donas conversam. Afinal... Nem tudo é mau. ;-)