quarta-feira, 23 de abril de 2014

Em breves momentos foi drenada de mim toda a vontade. Não doeu, escorreu apenas pelo meu corpo até ao chão.

A vontade de acabar o curso, a vontade de amar. Fiz-me crente de que não poderia amar ninguém, porque me faltam uma série de capacidades básicas, sou inapto.

As outras vontades, não sei se ainda cá pingam ou se foram com as primeiras.

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quinta-feira, 3 de abril de 2014

A Cidade Rápida

O mesmo caminho de sempre. Umas vezes fá-lo cansado e a desejar que acabe, outras vais atarefado a registar as epifanias geniais que te vão surgindo. O que é engraçado é que há sempre algo mais para descobrir. Desta vez é de noite e nunca passam carros na rua.

Bate com os dedos no mármore daquela parede para descobrires que o não é, e para teres o privilégio de sentir o som metálico suave e reverberante que as placas fazem. Ouve mais uma vez. E mais uma. Como é agradável batucar ali!

Aquilo seria um gato? Volta atrás, vais ver que não dói. É mesmo um gato, e estacou a sua marcha imponente a meio do beco quando te viu. Como irá reagir? De repente começa a correr em tua direcção, mas mal se aproxima vira à esquerda para fugir de ti. Não confies que fundiu o seu preto com o da noite! Olha de novo para a frente, lá vai ele a correr mesmo debaixo da luz dos candeeiros! Com uma pontaria matemática enfiou-se num buraco da parede. Como pode caber ali dentro? Vai lá ver. Liga a luz do telemóvel, para descobrires uma sala em ruínas de uma cave e dois olhos brilhantes fixos em ti. Como o buraco é demasiado pequeno para ti, continua o teu caminho, anotando a morada para depois poderes vir espreitar no buraco com uma amiga de explorações.

Por andares sem pressa e desperto talvez descubras a altura dos prédios, e aprecies como é diferente o seu último andar. E porque olhaste para cima saberás que as árvores, de articulações despidas, já têm pequenas flores brancas. Aproveita também para ficar a saber que sítio é aquele, que nunca percebeste. Basta aproximares-te um pouco mais...

Antes de chegares ao teu destino ainda tens tempo para desacelerar mais um pouco e alegrares-te com os dois cães que brincam livres, um preto e um branco, enquanto as donas conversam. Afinal... Nem tudo é mau. ;-)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Rugido de insubordinação

Overload.

Overload de informação, overload de apontamentos, de referências bibliográficas, cinematográficas e culturais. Overload de comboios à hora de ponta, overload de portas e carruagens, pessoas e imagens publicitárias. Abundância de pequenas coisas à là Amèlie, centrifugadas no overload de aceleração do quotidiano e da aceleração da caneta no papel. Tudo é em grande quantidade, para o bem e para o mal.

Excepto o tempo. Lack de tempo.

Adapto-me instantaneamente a este modo de estar. Não quero abdicar da observação e da contemplação, por isso observo e absorvo rápido. Dispo a linguagem de acessórios. Assim mesmo. Tudo são frases declarativas e raciocínios lógicos a processar. Dados binários. Agora estou dentro do Metro, agora estou fora. Agora posso escrever, agora não. Decisões rápidas e de precisão. Unidade-minuto. Locuções automáticas nos altifalantes. Procuro um espaço para mim e muitas vezes não consigo encontrar.

A única coisa que me impede de deprimir nesta vida mecânica é a arte, o desejo de partilha, experimentação e conhecimento que motivou este caos. Talvez tenha aceite viver como peça de maquinaria, mas logo debaixo da minha pele ferve o meu inconformismo e espírito crítico, a minha alma selvagem, a força que é ESTAR SEGURO DE QUE TENHO MOTIVOS PARA VIVER!

Sim, talvez tenha aceite abdicar das curvas do freestyle para viver confinado às linhas rectas dos cânones, que são os carris desta máquina limitadora. Mas enquanto deslizo por estes carris, atravesso galerias de arte e mundos novos, inspiro, pergunto e debato, sofro e venço, liberto-me e voo e sinto-me a crescer! Já não cresço para acompanhar a idade, cresço em direcção a uma pessoa melhor.

E esses carris que me querem prender, por azar deles, passam mesmo pelo sítio onde sou completamente livre e onde o tempo não corre mas eu corro, não porque preciso, mas porque quero. Estúpidos! Os carris é que estão presos ao chão, não sou eu!

Cidade, tu não me prendes. Eu é que usufruo do teu bem, alheio ao teu mal.

domingo, 15 de setembro de 2013

A Dança é um instrumento da Liberdade

Há certas danças que são só minhas, que não mostro a ninguém porque pensariam que sou autista e isso criar-me-ia alguns problemas.

Sinto-me noutro nível da expressão humana quando abdico do controlo do meu corpo para que a música o percorra e disturbe com suaviade ou violência. Umas vezes peso na terra bruta, outras flutuo num eco prolongado. Umas vezes quebro-me no mecanismo de um relógio, outras ondulo orgânico como uma planta que estiola. Umas vezes cavalgo longos padrões crocantes, outras expludo e chafurdo na aleatoriedade. Evaporo debaixo de água e nado no vácuo dos timbres distantes. Descubro articulações novas e brado aos céus...

Só sei que nesses momentos sou completamente livre, e tenho a certeza que a dança é um instrumento da liberdade.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Parlamento dos Jovens - Eleições à tuga II

Para dar seguimento a este post do ano passado, aqui vão algumas preciosidades da campanha eleitoral para o Parlamento dos Jovens deste ano.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Os Sábios

Somos os que ainda não podem ter carro e os que nunca tiveram, ou perderam a paciência para o conduzir. Uns de bom ânimo, outros chateados, todos nos sujeitamos a estes horários para nos podermos deslocar. Somos tão diferentes... Convivemos diariamente dentro desta lata de 30 metros quadrados, 33 sentados, 47 em pé, ora todos encolhidos, ora sentados o mais longe possível uns dos outros.

— Bom dia! — saúda-me a senhora idosa que se senta ao meu lado, obrigando-me a acordar de mil pensamentos.

— Bom dia — tento sorrir-lhe, e ela diz orgulhosa de si:

— Espero que chegue à minha idade. Setenta e oito!

Pequena e enrugada, de pele bronzeada, emana a energia de quem ainda não está cansado de viver. Interrogo-me em que paragem irá sair. Interrogo-me como será a sua rotina, como decidiu gastar os anos que lhe restam, em que o Estado a terá dispensado de trabalhar. Quando a reforma me libertar ou não da minha azáfama, o que vou eu fazer com o meu tempo em branco? Por decisão do acaso, a conversa não se desenvolve, e a senhora sai numa paragem a meio da linha, deixando-me uma leve esperança de a voltar a ver.


Bem longe daí, algumas semanas atrás, eu ouvia numa despedida apressada:

— Quanto eu era da tua idade e ia de barco para a escola, tentava que a viagem parecesse o mais longa possível, para o tempo passar mais devagar.

Não percebo o que quer dizer o meu avô. Perder tempo em transportes?! Passo a vida a reclamar que vivo a correr, que o tempo me escorre pelos dedos, mas só nesse momento percebi que, se calhar, até gosto de viver assim...

— Porquê, avô?

Ele começa a tropeçar nas palavras, como todas as pessoas, quando se lhes pede para explicar algo que para elas é inato. Encolhe os ombros:

— Oh neto... Para o tempo demorar mais a passar...

Não sei se foi ele que conseguiu explicar ou se fui eu que finalmente entendi - fazia-o para a vida parecer menos curta.

“Para o ignorante, a velhice é o inverno da vida.
Para o sábio, é a época da colheita.”
- Talmude