Ah, muito bem! Sendo assim estou satisfatoriamente satisfeito.
À procura de um lugar de liberdade num mundo saturado.
"Parece tão óbvio o facto que, no tempo de Pessoa (e no nosso; serão diferentes?), os Lusíadas já não fariam sentido como Camões os escreveu. Não passariam talvez, e perdoem-me a ofensa, de uma exaltação livresca e desnecessariamente extensa à barbárie, ao conflito bélico, à sede monstruosa e obsessiva de território.
Camões repete-se incessantemente num tom épico que enjoa. A sua voz forte e emocionada declamando a sua poesia de cima de um penhasco, perante o mar revolto português, acaba por tornar-se apenas um ruído de fundo na televisão enquanto se come o jantar. Falta-lhe o ritmo. Os seus poemas rimam, mas não ritmam. São incompletos. São monótonos. Louvamos um homem porque conseguiu falar bem do país em mil cento e duas estrofes de oito versos de dez sílabas métricas cada e esquema rimático sempre igual. Santa paciência! Como será o manifesto que Almada não escreveu sobre Luiz?
Assim julgo que terá pensado Pessoa, ou de forma menos agressiva. Pessoa foi sensível o suficiente para saber o valor da simplicidade. Convidou suavemente as pessoas a lê-lo, tão ocupadas estavam a repetir a sua rotina cinzenta, a manter a sua ignorância e a polir o seu desinteresse, porque lhes mostrou poemas leves e bonitos antes mesmo de serem lidos, e nessa aparente economia de palavras condensou todo o amor à pátria e aos seus heróis com uma nova magia. Por isso é que foi tão bem-sucedido no seu tempo de decadência. Pessoa foi o génio literário que emergiu no meio do nevoeiro."
Porque é ilegal escrever isto num exame nacional. ;)
dizia a minha professora de história da arte, pessoa que nos abriu mil portas e horizontes, que não lhe agradava tanto o minimalismo. que lhe incomodava a frieza, o rigor e a matemática. nunca imaginei que existisse esta opinião. sempre se me mostrou tão inocente, doce.
nada há mais inofensivo que um quadrado rodeado de espaço. nu de todas as artes que o mundo usa para pedir a nossa atenção em todos os sítios e em todos os momentos. leve no espaço, exterior ao tempo. às vezes precisamos de um refúgio no imutável. manhã. tranquilidade de tudo estar no lugar. inócuo por ser incapaz de nos ferir os sentidos. transparente. conhecido. puro.
Doentio vício de descrever os bons momentos através do texto; de tentar capturar e guardar para sempre todos os sentimentos, pormenores, cores, cheiros e sabores daqueles acontecimentos mágicos que me custa a acreditar ter vivido, como se as memórias não fossem mais que suficientes... Desespero na busca de palavras; sacrifico algumas para satisfazer a sede de possuir outros sinónimos. Debruço-me perigosamente no precipício do que é descritível, arrisco-me a tentar descrevê-lo, quase caindo no abismo da frustração. Sem me preocupar vou corroendo a imaginação, tão débil, gemendo a um canto, e que há muito desistiu de sonhar. Nunca sonho. Obceca-me a realidade. Enjoa-me a ficção.
Sempre foi o cão mais lindo do mundo, mesmo quando os olhos, já encovados, se encheram de ramelas; mesmo quando o pelo cadente se cobriu com chagas; mesmo quando as moscas se tornaram para ele a única presença fiel... Sofreu.
Agora vejo o trinco do portão aberto - aquele frágil portão improvisado que, injustamente, lhe devia vedar o acesso ao jardim seco - e olho à volta. Lá está tudo, igual: as mesas, pintadas de pó castanho, rodeadas das cadeiras franzinas e enferrujadas; os vasos e canteiros abandonados, onde uma verdura efémera passa despercebida; um tronco ou outro a servir de banco, e algumas mangueiras jazendo no chão de mármore quebrado e gasto. Vejo aqui uma natureza morta, que perdeu a pouca vida que lhe restava. Completamente estéril.
Arrependo-me dolorosamente das tantas vezes em que cedi ao irritante e repetitivo “não lhe faças festas”, ou das outras vezes, em que a pressa para chegar a lado nenhum me fez passar-lhe ao lado.
Confortou-me vê-lo ser coberto de uma terra clara e macia. De volta ao solo e ao ciclo da vida. Finalmente aconchegado, e abrigado do frio de cá fora. Terá o destino que desejo para mim próprio - fertilizar um pouco e, com sorte, fazer brotar uma árvore bonita neste mundo de cimento.
Sempre soube que gostava de escrever, mas por esta não esperava. As minhas deambulações ocasionais pelo mundo das palavras não resultaram em mais do que um pequeno Belogue, que julgava não ter grande interesse.
Tinha já começado a escrever um conto infantil, floresta espinhosa por onde nunca me tinha aventurado, quando alguém muito teimoso decidiu insistir comigo diariamente para que o terminasse e enviasse para o concurso do Prémio Literário Correntes D'Escritas / Papelaria Locus.
Muitas semanas depois, recebo um telefonema de um número desconhecido, dizendo com toda a inocência e simplicidade "Era só para informá-lo que ganhou!". Saltitei de alegria no banco do carro.
Assim sendo, no último sábado, 25 de Fevereiro, fui à Póvoa de Varzim, tendo oportunidade de dar uma curta espreitadela na majestade da Cidade Invicta, sólida como rocha, debruçada sobre o mar sem medo de cair; e de apreciar uma agradável viagem no Metro mais evoluído do país.
Fui muito bem recebido, senti-me mesmo bem!
Agradecer, explicar porque acho difícil escrever para crianças, e alertar toda a gente que o programa da disciplina de Português nos dias de hoje despreza completamente a escrita. Mission accomplished!
Esta azáfama de parabéns e elogios teve as consequências positivas de me incentivar ainda mais a escrever (esperem um aumento da massa de posts no Belogue), e de me relembrar que também eu Quero Ser Escritor! No entanto, teve a consequência negativa de me deixar estupidamente vaidoso por alguns dias. *dou um estalo em mim próprio*
Entretanto, a minha arqui-inimiga (cujo nome não deve ser pronunciado, pelo que a vou designar pela "palavra P") não se deixa vencer, e volta a investir com os seus cruéis truques psicológicos, causando-me um incrível desinteresse pelos regulamentos de concursos literários, que, por magia, começaram a chover à frente dos meus olhos.
Neste Belogue o autor usufrui da liberdade exploratória do Acordo Queerográfico por dois motivos:
(1) A linguagem molda a nossa forma de pensar e percepcionar a realidade. Precisamos de uma sociedade mais justa, logo, urge que procuremos uma forma mais inclusiva de escrever e falar;
(2) o autor acredita que a linguagem pertence ao povo e apenas ao povo, e este tem o direito de a alterar consoante as suas necessidades.
Do ponto 2 se deduz que o Estado não tem o direito de alterar a linguagem arbitrariamente. Assim, o [des]Acordo Ortográfico não faz sentido nenhum, e não é usado por este autor.