À noite, esperando por um autocarro que nunca antes apanhara, vindo a uma hora longínqua, um romeno meteu conversa comigo. "Vais apanhar o autocarro para o Montijo?"
Jovem adulto, magro, de pele muito avermelhada, quase como queimada pelo sol, e de uma beleza muito peculiar e madura, inteirou-me mais tarde que tinha 23 anos.
Poucos minutos foram precisos depois dessa pergunta para eu desligar o mp3, e para ele se sentir completamente à vontade para conversar comigo sem rodeios. E falou, falou, falou... Resumiu-me toda a sua vida, como um idoso solitário que finalmente encontra uma alma disponível para o ouvir. E era uma história realmente interessante. Mudei-me para o banco imediatamente ao lado do dele.
Falou-me do trabalho duro que levava na construção civil, das namoradas e das traições, da sua confiança, que não podia dar a ninguém, e de como eram injustas as ideias que as pessoas formulavam sobre ele sem o conhecerem. Mostrou-me uma fotografia de infância. Deu-me um conselho "como se fosse para um irmão". Exibiu, com a deliciosa inocência de uma criança, a quantidade de brigas em que já estivera envolvido, todas devidas a mais injustiças, e o facto de nunca se ter acobardado. Magrinho, mas forte, dizia. Deixou claro que só queria ser aceite, e que as pessoas não olhassem para ele de forma indiscreta na rua.
Ele não me conheceu. Eu conheci-o inteiramente. Quando olhei para o painel de partidas do terminal, o meu autocarro já lá não aparecia. Mas valeu a pena tê-lo perdido. É uma pessoa com que eu gostava de poder falar mais vezes.
Não há necessidade de nada dizer, de nada tocar, de nenhum músculo mover. Longas conversações se dão naquela metade de segundo em que os nossos olhos se encontram.
Um olhar que antes já fora um desespero inquietante e irracional por nos conhecermos melhor, por desvendarmos a personagem misteriosa que se oculta por detrás daquela pele. Um olhar que se mantém intenso como da primeira vez, mas que agora reflecte uma serena e consciente confirmação de conhecer o mais íntimo da mente do outro, e que segura com firmeza a estranha e perigosa confiança que automaticamente se ergueu entre nós. "Sei quem és."
E dia após dia nada mais se passa. Apenas esta subtil telepatia silenciosa, de vez em quando salpicada de meia-dúzia de palavras inúteis.
Não há mais nada para acontecer. Nada mais pode acontecer.
Costuma-se dizer que a vida tem altos e baixos. Isso toda a gente já sentiu, mas esquecemo-nos que também passamos por muitos períodos neutros. Sei que a maior parte dos seres humanos não concordam comigo, mas para mim estes últimos são os piores.
São períodos cinzentos, em que caímos na rotina. E cair na rotina é desperdiçar tempo de vida. Nada pior que isso!
Perguntam-me então se não prefiro estar na normalidade em vez de estar a sofrer... Pois então sou um romântico! Sem problemas, sem altos e baixos, sem emoções, sem obstáculos grandes para ultrapassar, sem uma boa dose de diferença salpicada pelos dias... qual o interesse de viver?
Nas escolas portuguesas tem-se o hábito de tornar as eleições, quer para a Associação de Estudantes, quer para o Parlamento dos Jovens, em autênticos arraiais. Exceptuando as eleições de delegados de turma, claro, porque esse é o único cargo disponível para os alunos em que se tem efectivamente que fazer alguma coisa. Começa a balbúrdia: mensagens de apelo ao voto em cada lista, mas totalmente vazias e desprovidas de argumentos (e até de criatividade - um simples "Vota B!" é mais que bom!) proliferam em camisolas impressas ou rabiscadas, e em panfletos e autocolantes reles. Festas, ofertas, música e barulho tentam conseguir a atenção do maior número de alunos. No dia dos sufrágios, apenas 40% dos eleitores se dão ao trabalho de esperar um minuto na fila para exercer o seu direito de voto. Típico português! Porquê criticar os adultos, se os hábitos começam logo nos jovens?
Hoje analisei os espaços publicitários de cada lista candidata ao Parlamento dos Jovens da minha escola, e fiquei deveras desiludido com a palhaçada e a falta de conteúdo que povoavam os placards. (A má ortografia também me preocupou, mas isso hoje em dia é altamente discutível...)
O Parlamento dos Jovens deste ano propõe, através das redes sociais, combater a discriminação (para os alunos do Básico) e fomentar a participação e a cidadania (para o Secundário).
No entanto, em ambos os níveis de ensino, a palavra que impera é "discriminação". E assunto não passa desta porta inicial - não vi uma única definição da palavra, nem sequer uma breve pesquisa sobre os grupos da sociedade que são hoje alvo de discriminação.
As cartolinas coloridas focam-se apenas em dizer que a discriminação é muito má e muito feia, e que temos que acabar com ela, e é por isso que deves votar em nós e não nos outros! Cada vez está mais na moda dizer-se que não se é racista. Os racistas são estúpidos! Uma hipocrisia pegada. Até eu sou racista, às vezes, mesmo tentando contrariar e extinguir os preconceitos que tenho.
O único material publicitário em que encontrei algo mais claro foi o da Lista A do Básico - uma carolina que, de forma [relativamente] bem persuasiva, nos lembrava que o presidente da maior potência mundial é negro, que a mulher mais rica do mundo é negra, que o homem mais rápido do mundo é negro, e por aí. E que não devemos odiar as pessoas pela cor da pele. Pessoal, estamos em que século?! Não quero ser desmancha-prazeres, mas se querem lutar contra o Apartheid, já vão muito atrasados!
Nada podia explicar melhor o meu ponto de vista do que este genial sketch do Estado de Graça:
Falta perguntar - quantos destes aspirantes a políticos tugas não têm aversão aos brasileiros, ou aos ucranianos, ou aos russos, ou aos romenos, ou até aos espanhóis (em casos mais extremos)? Quantos não chamaram "mongoloi*e" àquele colega com uma deficiência mental? Quantos não gozaram com aquele colega obeso, e com o outro colega, que era um rapaz mas lhes parecia uma rapariga? Quantos não se afastaram de um cigano na rua? São imensos os grupos que sofrem de discriminação hoje em dia, mas desses não lhes convém falar.
Repare-se ainda no título de uma das campanhas - "Contra a Discriminação nas Redes Sociais". Toda a gente sabe que é importantíssimo combater a discriminação dentro das redes sociais, porque fora delas já não faz mal, certo?
Toda esta falsa cidadania e propaganda fácil, a ausência de argumentos e de reflexão sobre os assuntos propostos e a banalidade das ideias conseguidas levam-me a pensar que os meninos só querem é poder fazer barulho no átrio, e experimentar sentar o rabinho nos assentos da Assembleia da República.
Quero correr pelas praças feitas de liberdade, deambular pelas avenidas ortogonais cheias de vida, e pelas irregulares também. Quero conhecer as pessoas do comboio, do metro e dos autocarros. Quero ver bocados de diferentes cantos do mundo mesmo ao meu lado. Quero estar mais próximo da minha comunidade, e conhecer as outras. Quero contemplar a diferença que se reproduz saudável, sem limites nem censuras.
Quero ver oportunidades a passar, e apanhá-las. Quero aprender, encher a minha mente com o que a humanidade tem de mais sábio e interessante, e saborear novos conhecimentos.
Quero respirar os jardins, tocar nas estátuas, abraçar as árvores e estudar na relva fresca. Sentir a paz da natureza, carinhosamente protegida e cuidada pelo ser monstruoso que mais a destruiu.
Sou uma pessoa podre de sortuda. Tenho tanta sorte que não cabe num indivíduo, chega a ser injusto!
Sei que nunca ganharei a lotaria, e que perco a maior parte dos jogos, e é essa a definição que a generalidade das pessoas tem da sorte. Eu tive uma sorte diferente, aquela que me permite humildemente considerar-me uma boa pessoa.
A sorte de ter nascido de pais fantásticos, que me souberam educar sem me baterem, que me tornaram uma pessoa cívica e consciente.
A sorte de cedo ter aprendido a escrever sozinho, e de sempre ter tido facilidade na escola.
A sorte de ter conseguido vencer o bullying, e de me ter blindado a ele (à prova de bala!).
A sorte de ter conhecido pessoas fantásticas. Bondosas, altruístas, sorridentes, inteligentes... Pessoas que considero meus ídolos incondicionalmente (e que se lixem as "Ignaras Vedetas" da televisão, que não preciso delas!).
A sorte de os meus pais e (quase) toda a minha família terem aceite muito bem a minha orientação sexual, e de viver numa zona muito rural onde, por obra e graça de qualquer coisa, não vi ainda homofobia.
E isto me chega para ser mais-que-feliz.
Apesar disso, divago muitas vezes num dilema que me frustra. Não é injusto, algumas pessoas terem mais sorte que as outras? Não é injusto uns terem a vida mais facilitada? Todos devíamos nascer com a mesma sorte, e tudo devia depender dos nossos esforços e dedicação apenas. Devia haver justiça. E se calhar devíamos ser nós a criá-la (ideia muito perigosa!)... Mas isto tudo não comprometeria a preciosa diversidade humana que tanto venero?
Fico-me por ajudar os outros. Sinto que é meu dever retribuir ao mundo, ou a não-sei-quem, a sorte que me deu. E aposto que a Margarida Fonseca Santos também partilha deste sentimento, o que me reconforta. Preciso de ajudar. É esta a forma que tenho de equilibrar o mundo como posso. Afinal, sempre pode ser o ser humano a criar essa tal justiça... :-)
(E assim começo a considerar a possibilidade de ser agnóstico...)
Quase três anos depois de ter começado este blog, achei que estava na hora de fazer um balanço, e esclarecer algumas coisas.
Um dia decidi criar um blog contrário ao do meu professor de CFQ, Pedro Ribeiro. Ideia maluca. O blog dele era muito fixe e chamava-se Trelogue, e a sua descrição era "BLOGS FORA NADA", e o visual era todo preto, minimalista e secante (com o tema "Minima" do Blogger), e tinha um contador de visitas amarelo.
Por isso é que este blog se chama Belogue, e a descrição é "TRELOGUES FORA NADA", e o visual é branquinho, minimalista e secante (com o tema "Minima" do Blogger), e tem um contador de visitas amarelo.
Um dia ele inalou um pó estranho no laboratório da escola, deu-lhe um ataque e decidiu apagar o Trelogue e os quatro ou cinco anos de publicações interessantes que lá residiam. "Porque sim...", disse-me ele, de uma forma que não era muito própria do Pedro Ribeiro. A blogosfera devia ter feito luto nesse dia. É vida...
Agora já não faz sentido este blog chamar-se Belogue, e a descrição ser "TRELOGUES FORA NADA" e o visual ser branquinho, minimalista e secante (com o tema "Minima" do Blogger), e o contador de visitas ser amarelo.
Por favor, eu estou em Artes Visuais! Apetece-me inundar este branco todo de cores e dos meus elementos visuais preferidos. I wanna get creative! Ainda por cima tenho experiência em webdesign, o que me permite pôr esta porcaria toda da forma que me apetecer, sem limites!
E também estou a pensar em trocar o título, que é mesmo desinteressante!
REVOLUÇÃO NO BELOGUE!!!
(Compram-se ideias - por favor, negoceie nos comentários.)
Neste Belogue o autor usufrui da liberdade exploratória do Acordo Queerográfico por dois motivos:
(1) A linguagem molda a nossa forma de pensar e percepcionar a realidade. Precisamos de uma sociedade mais justa, logo, urge que procuremos uma forma mais inclusiva de escrever e falar;
(2) o autor acredita que a linguagem pertence ao povo e apenas ao povo, e este tem o direito de a alterar consoante as suas necessidades.
Do ponto 2 se deduz que o Estado não tem o direito de alterar a linguagem arbitrariamente. Assim, o[des]Acordo Ortográfico não faz sentido nenhum, e não é usado por este autor.