Costuma-se dizer que a vida tem altos e baixos. Isso toda a gente já sentiu, mas esquecemo-nos que também passamos por muitos períodos neutros. Sei que a maior parte dos seres humanos não concordam comigo, mas para mim estes últimos são os piores.
São períodos cinzentos, em que caímos na rotina. E cair na rotina é desperdiçar tempo de vida. Nada pior que isso!
Perguntam-me então se não prefiro estar na normalidade em vez de estar a sofrer... Pois então sou um romântico! Sem problemas, sem altos e baixos, sem emoções, sem obstáculos grandes para ultrapassar, sem uma boa dose de diferença salpicada pelos dias... qual o interesse de viver?
Nas escolas portuguesas tem-se o hábito de tornar as eleições, quer para a Associação de Estudantes, quer para o Parlamento dos Jovens, em autênticos arraiais. Exceptuando as eleições de delegados de turma, claro, porque esse é o único cargo disponível para os alunos em que se tem efectivamente que fazer alguma coisa. Começa a balbúrdia: mensagens de apelo ao voto em cada lista, mas totalmente vazias e desprovidas de argumentos (e até de criatividade - um simples "Vota B!" é mais que bom!) proliferam em camisolas impressas ou rabiscadas, e em panfletos e autocolantes reles. Festas, ofertas, música e barulho tentam conseguir a atenção do maior número de alunos. No dia dos sufrágios, apenas 40% dos eleitores se dão ao trabalho de esperar um minuto na fila para exercer o seu direito de voto. Típico português! Porquê criticar os adultos, se os hábitos começam logo nos jovens?
Hoje analisei os espaços publicitários de cada lista candidata ao Parlamento dos Jovens da minha escola, e fiquei deveras desiludido com a palhaçada e a falta de conteúdo que povoavam os placards. (A má ortografia também me preocupou, mas isso hoje em dia é altamente discutível...)
O Parlamento dos Jovens deste ano propõe, através das redes sociais, combater a discriminação (para os alunos do Básico) e fomentar a participação e a cidadania (para o Secundário).
No entanto, em ambos os níveis de ensino, a palavra que impera é "discriminação". E assunto não passa desta porta inicial - não vi uma única definição da palavra, nem sequer uma breve pesquisa sobre os grupos da sociedade que são hoje alvo de discriminação.
As cartolinas coloridas focam-se apenas em dizer que a discriminação é muito má e muito feia, e que temos que acabar com ela, e é por isso que deves votar em nós e não nos outros! Cada vez está mais na moda dizer-se que não se é racista. Os racistas são estúpidos! Uma hipocrisia pegada. Até eu sou racista, às vezes, mesmo tentando contrariar e extinguir os preconceitos que tenho.
O único material publicitário em que encontrei algo mais claro foi o da Lista A do Básico - uma carolina que, de forma [relativamente] bem persuasiva, nos lembrava que o presidente da maior potência mundial é negro, que a mulher mais rica do mundo é negra, que o homem mais rápido do mundo é negro, e por aí. E que não devemos odiar as pessoas pela cor da pele. Pessoal, estamos em que século?! Não quero ser desmancha-prazeres, mas se querem lutar contra o Apartheid, já vão muito atrasados!
Nada podia explicar melhor o meu ponto de vista do que este genial sketch do Estado de Graça:
Falta perguntar - quantos destes aspirantes a políticos tugas não têm aversão aos brasileiros, ou aos ucranianos, ou aos russos, ou aos romenos, ou até aos espanhóis (em casos mais extremos)? Quantos não chamaram "mongoloi*e" àquele colega com uma deficiência mental? Quantos não gozaram com aquele colega obeso, e com o outro colega, que era um rapaz mas lhes parecia uma rapariga? Quantos não se afastaram de um cigano na rua? São imensos os grupos que sofrem de discriminação hoje em dia, mas desses não lhes convém falar.
Repare-se ainda no título de uma das campanhas - "Contra a Discriminação nas Redes Sociais". Toda a gente sabe que é importantíssimo combater a discriminação dentro das redes sociais, porque fora delas já não faz mal, certo?
Toda esta falsa cidadania e propaganda fácil, a ausência de argumentos e de reflexão sobre os assuntos propostos e a banalidade das ideias conseguidas levam-me a pensar que os meninos só querem é poder fazer barulho no átrio, e experimentar sentar o rabinho nos assentos da Assembleia da República.
Quero correr pelas praças feitas de liberdade, deambular pelas avenidas ortogonais cheias de vida, e pelas irregulares também. Quero conhecer as pessoas do comboio, do metro e dos autocarros. Quero ver bocados de diferentes cantos do mundo mesmo ao meu lado. Quero estar mais próximo da minha comunidade, e conhecer as outras. Quero contemplar a diferença que se reproduz saudável, sem limites nem censuras.
Quero ver oportunidades a passar, e apanhá-las. Quero aprender, encher a minha mente com o que a humanidade tem de mais sábio e interessante, e saborear novos conhecimentos.
Quero respirar os jardins, tocar nas estátuas, abraçar as árvores e estudar na relva fresca. Sentir a paz da natureza, carinhosamente protegida e cuidada pelo ser monstruoso que mais a destruiu.
Sou uma pessoa podre de sortuda. Tenho tanta sorte que não cabe num indivíduo, chega a ser injusto!
Sei que nunca ganharei a lotaria, e que perco a maior parte dos jogos, e é essa a definição que a generalidade das pessoas tem da sorte. Eu tive uma sorte diferente, aquela que me permite humildemente considerar-me uma boa pessoa.
A sorte de ter nascido de pais fantásticos, que me souberam educar sem me baterem, que me tornaram uma pessoa cívica e consciente.
A sorte de cedo ter aprendido a escrever sozinho, e de sempre ter tido facilidade na escola.
A sorte de ter conseguido vencer o bullying, e de me ter blindado a ele (à prova de bala!).
A sorte de ter conhecido pessoas fantásticas. Bondosas, altruístas, sorridentes, inteligentes... Pessoas que considero meus ídolos incondicionalmente (e que se lixem as "Ignaras Vedetas" da televisão, que não preciso delas!).
A sorte de os meus pais e (quase) toda a minha família terem aceite muito bem a minha orientação sexual, e de viver numa zona muito rural onde, por obra e graça de qualquer coisa, não vi ainda homofobia.
E isto me chega para ser mais-que-feliz.
Apesar disso, divago muitas vezes num dilema que me frustra. Não é injusto, algumas pessoas terem mais sorte que as outras? Não é injusto uns terem a vida mais facilitada? Todos devíamos nascer com a mesma sorte, e tudo devia depender dos nossos esforços e dedicação apenas. Devia haver justiça. E se calhar devíamos ser nós a criá-la (ideia muito perigosa!)... Mas isto tudo não comprometeria a preciosa diversidade humana que tanto venero?
Fico-me por ajudar os outros. Sinto que é meu dever retribuir ao mundo, ou a não-sei-quem, a sorte que me deu. E aposto que a Margarida Fonseca Santos também partilha deste sentimento, o que me reconforta. Preciso de ajudar. É esta a forma que tenho de equilibrar o mundo como posso. Afinal, sempre pode ser o ser humano a criar essa tal justiça... :-)
(E assim começo a considerar a possibilidade de ser agnóstico...)
Quase três anos depois de ter começado este blog, achei que estava na hora de fazer um balanço, e esclarecer algumas coisas.
Um dia decidi criar um blog contrário ao do meu professor de CFQ, Pedro Ribeiro. Ideia maluca. O blog dele era muito fixe e chamava-se Trelogue, e a sua descrição era "BLOGS FORA NADA", e o visual era todo preto, minimalista e secante (com o tema "Minima" do Blogger), e tinha um contador de visitas amarelo.
Por isso é que este blog se chama Belogue, e a descrição é "TRELOGUES FORA NADA", e o visual é branquinho, minimalista e secante (com o tema "Minima" do Blogger), e tem um contador de visitas amarelo.
Um dia ele inalou um pó estranho no laboratório da escola, deu-lhe um ataque e decidiu apagar o Trelogue e os quatro ou cinco anos de publicações interessantes que lá residiam. "Porque sim...", disse-me ele, de uma forma que não era muito própria do Pedro Ribeiro. A blogosfera devia ter feito luto nesse dia. É vida...
Agora já não faz sentido este blog chamar-se Belogue, e a descrição ser "TRELOGUES FORA NADA" e o visual ser branquinho, minimalista e secante (com o tema "Minima" do Blogger), e o contador de visitas ser amarelo.
Por favor, eu estou em Artes Visuais! Apetece-me inundar este branco todo de cores e dos meus elementos visuais preferidos. I wanna get creative! Ainda por cima tenho experiência em webdesign, o que me permite pôr esta porcaria toda da forma que me apetecer, sem limites!
E também estou a pensar em trocar o título, que é mesmo desinteressante!
REVOLUÇÃO NO BELOGUE!!!
(Compram-se ideias - por favor, negoceie nos comentários.)
Ponho a solução alcoólica pegajosa em cada borbulhinha irritante da minha cara, com paciência, mas com mais fé que nunca. É desta que elas vão desaparecer todas, de hoje para amanhã!
Já perdi dias de vida a pôr a maldita e milagrosa solução, e tenho uma relação de amor-ódio com ela. Já sofro da face há alguns anos, e há várias semanas que faço jejum de chocolate, por acreditar que a doçura deste divino alimento tem um preço elevado para a cara do consumidor.
Desta vez elas vão ver! Vou aniquilá-las todinhas, não vai restar nem uma, e depois vou dançar por cima dos desprezíveis cadáveres das malditas protuberâncias, rindo maleficamente! E depois vou deitar fora a maldita solução alcoólica, que nunca mais vou precisar dela! E ela vai sentir-se horrível por ter sido usada!
Eu vou ganhar esta batalha e mandar para o inferno todas as porcarias que alguma vez me atormentaram a cara! REVOLUÇÃO!
Inspirado no humor de Pedro Ribeiro, na brutalidade e força da Nêspera e nas personificações criativas da Margarida Fonseca Santos. Motivado por um infortunado espelho que se pôs à minha frente na casa-de-banho.
Neste Belogue o autor usufrui da liberdade exploratória do Acordo Queerográfico por dois motivos:
(1) A linguagem molda a nossa forma de pensar e percepcionar a realidade. Precisamos de uma sociedade mais justa, logo, urge que procuremos uma forma mais inclusiva de escrever e falar;
(2) o autor acredita que a linguagem pertence ao povo e apenas ao povo, e este tem o direito de a alterar consoante as suas necessidades.
Do ponto 2 se deduz que o Estado não tem o direito de alterar a linguagem arbitrariamente. Assim, o[des]Acordo Ortográfico não faz sentido nenhum, e não é usado por este autor.